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01/03/2017 00h00
 

O BRASIL TEM JEITO?
Tem...

 
Chamem o Dr. Spock

 

.Especial para A TOLHA, Torres 02 março 

“ Filhos, para que tê-los?”, pergunta-se o imortal poetinha, sempre lembrado nas rodas boêmias. E responde, estendendo-se em diálogo enigmático: ‘Mas se não tê-los, como sabê-lo?” Eu não sou bom poeta. Até tento. Mas parece que o bom poeta nasce poeta. É difícil fazê-lo. Mais fácil fazer filhos...Compensa-me o espírito prático do técnico que me ensinaram a ser. Aí é mais fácil lavrar o cinzel da cultura: números, régua, compasso, datas etc etc. Então, respondo ao  Vincícius de Moraes dizendo que os filhos nos servem para fazer perguntas, o que nos obriga a pensar sobre elas. Pensando, existimos no tempo, nos atualizamos.  Ou desistimos...Tudo depende...

Hoje pela manhã minha filha, já quase doutora em Psicologia, me pegou de surpresa: - “Pai, o Brasil tem jeito?”

-“Tudo depende, respondi ganhando tempo. Em que sentido?”

-“Ora, assim, todo mundo ter um emprego digno, os serviços públicos funcionarem como se espera deles, as estradas e ruas se buracos ameaçadores. Segurança, enfim.”

Já pronto para uma longa dissertação comecei então dizendo-lhe que o Brasil já deu jeito, já teve jeito. Houve tempo que era (mais ou menos) bom. Fomos um modelo de modernização industrial e crescimento nos anos 1930-1980. Saímos dum fazendão de café, com uma população eminentemente pobre e  rural em torno de 35 milhões de almas e chegamos a perto de 200 milhões no final do século dourado, eminentemente urbanos. Isso é um grande feito. Ou como diria, parodiando o astronauta que pisou primeiro na lua: - Um pequeno passo (para um homem, uma ou duas gerações) mas um grande passo para a nação.  Nós demos este passo em 50 anos, quando crescemos a uma taxa média anual de 6,5%. . Saímos do subdesenvolvimento e cavamos um lugar - mais expressivo pelo feito do que pelo próprio tamanho- , equivalente a 1% do progresso mundial, que só ultrapassamos no tocante à população e suas misérias. Basta dizer que ao final da II Grande Guerra, só havia três países promissores no mundo: Estados Unidos, lá na frente, Argentina, no meio, e nós, logo atrás. Explico bem isso, até mostrando que aí está um de nossos problemas, porque as gerações atuais não têm ideia do que era o Brasil de seus avós, quando a idade média de vida era pouco superior a 50 anos. Hoje é 74, ainda que para as populações vulneráveis continue em torno de 50. Mas melhoramos a estrutura produtiva e com isso, as médias, de renda percapita, familiar, sobrevivência no parto e infantil,  expectativa de vida e acesso a certos bens e serviços, como o III Grau. No fundo, crescemos economicamente mais do que nossa capacidade de acomodar as populações emergentes nos grandes centros metropolitanos. E, quando vimos já nem crescíamos mais e os problemas sociais afloraram com virulência.

O que quero dizer é que o Brasil dos anos 50 era um país pobre, já socialmente injusto pelo caráter oligárquico da sociedade mas relativamente equilibrado em termos de demandas sociais. A explosão desenvolvimentista nos desequilibrou. As únicas coisas que permaneceram intactas foram as nossas escolinhas da primeira metade do século, as sedes majestosas do Banco do Brasil e um sistema político tradicional, movido a troca de benefícios.

O desenvolmentismo rebentou com as estruturas sociais e urbanas, com os serviços públicos, expôs velhas misérias que antes até ficavam ocultas sob o ‘manto diáfano’ da boa sociedade do café , do açúcar , da vaca e do boi. Diante disso fomos obrigados a deixar para trás o sonho de Grande Potência, alimentado no pós guerra, para o sonho de uma sociedade mais justa, a ser construída pela Constituição de 1988. Mas isso, sem alterar estrtuturas políticas, viciadas pelo coronelismo e pelas modernas exigências do financiamento de campanha numa era de revolução nas comunicações. E sem resolver para onde iríamos em termos econômicos: qual o projeto econômico? Depois de 88 sucumbimos à loucura por justiça...

Vencido o primeiro round da indústria metal-mecânica, quando o principal artífice do processo eram as multinacionais amparadas num Estado forte, capaz de dar-lhes o suporte, o Brasil não consegue vencer os desafios das terceira e quarta revolução industrial: a da eletro-eletrônica e novos materiais e processos, toda ela montada sobre os cânones da globalização, com disseminação dos componentes pelos quatro cantos do globo.

Países menores, como Irlanda, com 6 milhões de habitantes, e até mesmo cidades-estado como Cingapura enfrentam isso com facilidade: Transformam-se em plataformas de montagem e exportações.  Nunca tiveram pretensões de grande potência, nem sua política interna alimentou ares de defesa intransigente da soberania nacional, naturalmente em cheque num modelo de transferência das decisões para complexos processos multinacionais cada vez mais articulados com o sistema financeiro.

Outros países, grandes,  como Irã, China e Rússia, namoram a globalização mas com forte controle autoritário interno sobre seus sistema políticos. India é um caso à parte, porque alia a defesa de cultura milenar a uma forte articulação com o Ocidente, em repúdio, talvez ao confucionismo dominante na China. A índia é religiosa como nós...México, mais parecido com o Brasil, aderiu sem restrições ao modelo da globalização mas para vencer uma etapa que o Brasil venceu há 50 ou 60 anos: ‘las maquiladoras’ , de bens de consumo durável. E agora, abandonado por Trump, está em maus lençóis.

Na atual etapa do desenvolvimento mundial marcada pela forte dominância financeira nos mercados globais e emergência de conglomerados industriais de ponta tecnológica não há um exemplo claro de combinação entre crescimento e distribuição da renda com defesa da soberania em regime democrático. Trata-se de um nó górdio à espera de um Alexandre que ouse desatá-lo na retomada de um caminho alternativo que poderá salvar a humanidade.

O Brasil, enfim, deu certo, mas empacou. Há um desafio econômico que consiste em produzir bens de alta tecnologia e valor agregado simultâneo à resolução do enigma de como se faz isso combinando preservação da democracia, melhorias sociais e defesa da soberania.

As forças políitcas internas, hoje, estão divididas, como, aliás, estavam na década de 1950, entre uma esquerda com forte inclinação nacionalista e amplo apoio corporativo no modelo assentado pela indústria metal-mecânica, polarizadora das demandas sociais mais amplas e uma direita globalista que percebe a necessidade do salto tecnológica do processo de abertura e globalização mas insensível às demandas por segurança e desenvolvimento social paralelo. Trata-se de um impasse, muito similar ao que vivem Argentina, México e , talvez, Irã. Nada fácil de resolver. Nos idos de 55 um astuto e simpático político de Minas, de nome difícil de pronunciar, Kubitschek, traçou a bissetriz desse ângulo pela centro-esquerda. Deu no que deu. Conseguimos um consenso mínimo em torno da industrialização, uma certa paz interna e uma conexão internacional que nos brindo com 350 congomerados multinacionais que dominam nossa economia, sem, contudo equacionar o passivo social. Lula, de outro jeito, com outra origem e outras inspirações, quase reeditou o feito, Mas, preferiu o caminho da política trilhando caminhos viciados à ousadia no campo econômico. Deu no que deu, também. Vamos ver agora, no que vai dar. Mas que o Brasil deu certo, isso deu. Falta, agora, consertar a nave para seguir viagem. Chamem o capitão Spock, advertindo-lhe tecnicamente que o dilema não é esquerda x direita, nem mercado x Estado, nem exportações x consumo interno, nem muito menos Socialismo como Neverland x Capitalismo como locus da barbárie, mas como retomar um novo padrão tecnológico e social do  desenvolvimento com todas estas variáveis.

 
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