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02/09/2016 00h00
 

ACABOU-SE A ERA PETISTA
“Nunca mais uma manhã confiante.”

 


Paulo Timm – Especial para A FOLHA, Torres – 02 setembro 2016

                                                             Ilustração _A.Maximo - Militantismo


 “Um crime passível de impeachment é todo aquele que o Congresso decidir em um momento da história”.

Gerald Ford – Presidente dos Estados Unidos

 

“Se errarmos, a democracia se corrigirá e o povo nos corrigirá”

Sen. Renan Calheiros, pronunciamento Sessão Impeachment, Senado Federal, 31 agosto 2016

 

“Muita gente continua a pagar pedágio ao PT, mesmo quando o critica: em treze anos no poder, o partido teria defendido os pobres e promovido uma expressiva desconcentração da renda nacional.

O argumento é falso. A propalada distribuição de renda, simplesmente, não existiu. Foi mais uma peça de propaganda do que algo real. Tratei disso em um boletim para a Fundação João Mangabeira, que está no link.”
Cesar Benjamin- Facebook. Acesso 01 set 2016

 

“Furias!  Respeitai a convicção e o poder sagrado  razão,b personificados na figura de justiça. Ficai na minha cidade! Fazei o bem e receberei o  bem em troca”.

Atena, deusa da sabedoria na mitologia grega e personagem da Oresteia, de Ésquilo.

 

                                                    *

Não foi ainda desta vez que o Brasil livrou-se da maldição do Agosto: No seu derradeiro dia, 31, o Senado Federal, por 61 votos contra 20, depois de pouco mais de oito meses de tramitação, condensadas em 71.400 insossas páginas, aprovou o impeachment da  Presidente Dilma Roussef. Com ela vão-se 13 anos e meio  consagrados como Era Petista,  de 01 de janeiro de 2003 até 12 de junho de 2016, um período rico em experiências sociais, pobre em vivências políticas, lamentável em exemplos de gestão da coisa pública. Na mesma sessão do Senado, o Plenário afrontou decisão do Supremo Tribunal Federal, que já se pronunciara, no Impeachment de Fernando Collor,  sobre a indivisibilidade da pena imposta ao Presidente cassado e por 46 votos, 16 a mais do que os votos pela cassação de Dilma, lhe garantiu o exercício de direitos políticos. Acabou-se. Daqui para diante é com a História. Mas, no calor dos acontecimentos, ainda cabem reflexões.

Destaco quatro momentos nesta longa jornada, mais dignos de uma alentada tese de doutorado do que este breve rascunho: 

1.   O PT como um produto surpreendente do projeto de abertura política lenta, segura e gradual concebido pelo General Golbery do Couto e Silva, no  Governo Geisel )1975-79);

2.   O Governo Dilma Roussef I e II

3.   O  processo de impeachment de Dilma Roussef : 2015 – 2016

4.   A cassação de Dilma Roussef

Vejamos:

1, O PT como produto da abertura

Com a crise do petróleo em 1973 e a mudança no panorama internacional depois da eleição do Presidente J. Carter, nos Estados Unidos desembocando na extensiva vitória da Oposição nas eleições para o Senado no ano seguinte, foram se esgotando as possibilidades de sobrevivência do regime militar no Brasil. Daí o projeto de abertura comandado pelo próprio Presidente Geisel com vistas ao retorno do país ao Estado de Direito Democrático, desde que o mesmo evitasse o retorno ao passado ou caísse nas mãos de um MDB radicalizado nas mãos de Ulysses Guimarães. Tarefa difícil, eis que acompanhada da Anistia e retorno ao país de velhos protagonistas do Governo Goulart, derrubado em 1964, tais como Leonel Brizola, Miguel Arrais, Luiz Carlos Prestes, Almino Afonso, dentre outros, mas cirurgicamente operada pelo General Golbery do Couto e Silva.  Começou pela Reforma Partidária, aprovada no final de 79, que desarticulou parcialmente o MDB e trouxe á tona Brizola, com seu PDT, envolto pela aura eleitoral e Lula, com o PT, este com vasto apoio da Igreja e Movimentos Sociais, não comprometido com o passado e equidistante dos polos da Guerra Fria. Como os acontecimentos nunca correspondem ao que se deles se espera, o MDB não se despedaçou, como esperado. Resistiu, com forte apoio dos comunistas tradicionais – PCB e PCdoB – com a tese da UNIDADE DAS OPOSIÇÕES e ganhou vários Governos em 1982, enquanto Brizola, desfalcado da sigla histórica do PTB, ganhava o Rio de Janeiro no mesmo ano. Fato importante: O Governo passara de Geisel para o General Figueiredo e perdera seu principal articulador político. A campanha das “Diretas Já” ganha as ruas e faz história,  apertando o cerco contra o regime militar. Ainda assim, a Emenda das Diretas é rejeitada pelo Congresso em 1984, evidenciando o controle  autoritário do processo de abertura. Um inicidente, porém, o desarma: a indicação de Paulo Maluf como candidato do Governo ás eleições ainda que indiretas. Em rápida e inteligente manobra, Ulysses e Tancredo Neves conspiram para uma cisão nas hostes governamentais, sagrando-se, aí Tancredo como o Presidente da Oposição, com José Sarney como Vice, que deveria tomar posse no dia 15 de março de 1985. O resto, todos sabem: Ele adoece e á revelia da Constituição é empossado Sarney, que logo convocará a Constituinte, aprovada em outubro de 88, permanecendo no Governo por cinco anos. O projeto militar, com isso, ia perdendo fôlego e abrindo caminho para a fase efetiva da democratização pós 88, que se consagraria com as eleições diretas para a Presidência em 1989, ali sagrando-se vencedor Fernando Collor,  com apoio da direita, com Lula e Brizola no seu encalço, pela esquerda, este porém, já bastante desgastado, vindo a falecer em 2004 e levando com ele o forte peso da tradição trabalhista autêntica. O regime militar, portanto, mesmo em recuo e sem herdeiros políticos de peso, afirmava o seu propósito maior: O pais voltava à democracia, sem os riscos do “passado”.:Uma nova esquerda, livre dos radicais “autênticos” do velho MDB, dos   comunistas e do “populismo trabalhista”, afirmava-se no cenário político. Mal sabiam eles que todas essas perversidade lá estariam e acabariam desovando: o radicalismo retórico abençoado pelo messianismo, o bolchevismo atávico caído longe do “pessegueiro” e o sindicalismo kazaniano irrefreável...

 

2. Prólogo:Dilma Roussef

Depois de oito anos do Governo Lula, Dilma é por ele indicada á Presidência, assume um primeiro mandato em 2011 e recandidata-se, em 2014, vindo a ganhar novamente  as eleições com 54 milhões de votos, contra 51 milhões,  dados ao candidato tucano Aécio Neves. Desde o início demonstra-se, entretanto,  pouco afeita aos salamaleques da Política congressual, mas mantém a  estratégia de Lula de construir uma maioria parlamentar, com maior apoio, até, do PMDB, o maior Partido do país, que indica, nas duas eleições seu Presidente Nacional  como Vice de Dilma e outros partidos menores, com vistas à Governabilidade. Não consegue, porém, imantar esta Base Aliada em torno de sua liderança, que não ultrapassa os limites da autoridade palaciana, começando pela própria bancada do PT, seu Partido. As tensões são constantes e explodem já em dezembro de 2014,  logo de sua aclamação como futura Presidente, fato que ela própria acabará reconhecendo na sua defesa perante o Senado Federal no dia 29 de agosto passado. Concretamente, Dilma perdeu, paulatinamente,  a capacidade para Governar. Não se debite, entretanto, tudo à sua difícil personalidade. Houve uma grande mudança no panorama internacional entre os Governos Lula e Dilma, sendo de se ressaltar a desaceleração do crescimento da China com a reversão dos preços das commodities, que haviam permitido um sensível impulso do PIB, associado a outras medidas de fortalecimento do poder de compra interno, ao tempo de Lula. Internamente, o país também havia mudado, levando uma emergente classe trabalhadora e se enfrentar com os rigores de uma infra-estrutura urbana que pouco se modificava, à falta de investimentos públicos. Isso estava evidente nas multitudinárias manifestações de junho de 2013 e no visível aperto à vitória de Dilma em 2014. Especialistas não se cansavam, também, embora pouco ouvidos pela opinião pública, ainda animada pelos altos níveis de emprego e renda, de chamar a atenção para os riscos subjacentes às manobras de uma contabilidade criativa sobre as contas públicas, que mal disfarçavam um crescente déficit público. A consequência disso tudo foi um rastejante crescimento do PIB em 2014, disfarçado pela consigna de campanha “Trabalhador não Come PIB”, que leva Dilma Roussef a, enfim, reconhecer a gravidade da crise iminente e a procurar apoio junto ao empresariado através de indicação de Joaquim Levy, para o Ministério da Fazenda, em representação ao poderoso sistema financeiro do pais e, logo a seguir, Armando Monteiro, da Confederação Nacional da Indústria e Kátia Abreu, ligado ao agro-business, só ficando de fora deste acordo com a “burguesia nacional” os empreiteiros da construção civil, já às voltas com a Operação Lava Jato. Nada disso resultou , politicamente. Em menos de seis meses da posse, Dilma penava um isolamento, quer das forças políticas, quer da própria opinião pública, que não lhe entregava sequer 10% de apoio. O colapso era visível. Rapidamente, Partidos, inclusive o PMDB e seu vice Michel Temer, o PSDB, inclusive o provecto FHC, grandes empresários, FIESP à testa, todos com farto apoio da Mídia, inclinam-se para o pedido de Impeachment que chegou, em algumas pesquisas a obter 60% do apoio público, para o que contribui, decisivamente, o clamor anticorrupção gerado pelo envolvimento de altos próceres do PT em processos  da Operação Lava Jato. A tudo isso, o PT e Governo Dilma responderam com a eloquência da convicção no politicamente correto, denunciando, com grande vigor e inusitada capacidade de envolvimento da sociedade, o “golpe” contra a democracia, que ora se encerra com o afastamento definitivo de Dilma.

3. Acontecimento: O processo do Impeachment

Muito se falará, ainda, sobre o processo que afastou Dilma da Presidência. Ele é fruto de uma legislação ultrapassada, à luz dos acontecimentos recentes: Dilma teria, segundo a acusação, atentado contra o capítulo vi, artigo 10, parágrafos 7-12 da Lei 1079 , dos idos de 1950, modificada no ano 2000 pela Lei da Responsabilidade Fiscal, com uma expressão que ficaria conhecida como “pedaladas fiscais”.  Um emérito constitucionalista, ex Senador Paulo Brossard, debruçado sobre o Crime de Responsabilidade aí inscrito como fundamento do impeachment, propõe que este já deveria ter sido substituído por “Infrações Políticas”. Crime de Responsabilidade, na forma da Lei, ou Infração Administrativa, no entender de Brossard, foi esta a causa imediata do processo de impeachment. Na discussão política, porém,  há que se ter em conta, sempre, a diferença entre causa efetiva do impeachment e condição de possibilidade do mesmo, a qual desliza rumo ao acontecimento, ao mesmo tempo em que já o contém. O acontecimento é apenas aquilo que irrompe, no bojo de um processo ou, ainda, que simplesmente o atropela, interpelando-nos á sua melhor compreensão.  Nem sei se isto já é possível, mas se, pelo menos entendermos tais ocorrências em sua genealogia, apontando além das causas , também as condições de possibilidade de ocorrerem já seria um avanço epistemológico. Nestas condições, a crise generalizada em que mergulhou o Governo Dilma,  a partir de 2014 e que iria potenciar uma filigrana legal,”as pedaladas fiscais”, no pomo da discórdia entre defensores do impeachment e os que lhe foram contrários. A filigrana, porém, num tribunal em que os juízes são políticos e não magistrados, como “causa”, cedeu lugar às circunstâncias políticas que o envolveram e acabou afastando Dilma por Crime de Responsabilidade.  Uma sentença, para o advogado da Presidente, J.Eduardo Cardozo, desproporcional à falta, porventura cometida, mas que se justificou, para os que a condenaram, por tê-la feito, na campanha eleitoral de 2014, com vistas a encobrir a real situação deficitária das contas públicas e iludir os eleitores. Uma espécie de vendeta, constitucionalmente armada, politicamente articulada, num campo em que o PT e Dilma, já estavam isolados. Se foi crime, um crime perfeito, resultado do que Brutus definiria não como reles assassinato, as Ação Política,  que só poderá ser revertido, se o for, com o retorno a situação ex post ante, como ocorreu, por exemplo, com a decisão que do próprio Congresso Nacional ao anular a sessão presidida por Auro de Moura Andrade que declarou vaga a Presidência da República, em 1964, quando o Presidente João Goulart ainda estava em território nacional e não havia renunciado.

 

E o crime de Dilma é, fundamentalmente, político. Ela manteve a conta no vermelho com os bancos públicos em níveis elevadíssimos, durante 2014, porque, de acordo com as regras contáveis das contas públicas, essa ‘dívida’ não aparecia no vermelho nem nos bancos, nem no caixa da União. Porque as regras que regem a contabilidade de uns e da outra são distintas. Os bancos consideravam dívida paga e a União não indicava a saída do dinheiro. O governo Dilma só fez isso por um único motivo: para, no ano eleitoral, fazer parecer que a economia estava melhor do que de fato estava.

(Pedro Doria, Jornalista, citado no FB por Brenda Ismael – 31 ago)

 

 

 

4.O êxodo:  cassação

 

A cassação definiu-se na sessão do Senado Federal, presidida pelo Presidente do Supremo Tribunal Federal, R. Lewandowski, do dia 31 de agosto.  A semana anterior, no entanto, foi marcante e ilustra o resultado final. O personagem central, digno de menção - e talvez longa memória -, foi a própria acusada Dilma Roussef, secundada pelo brilho de seu advogado, José E.Cardozo, o qual, até que enfim, disse a que veio, o que não conseguiu provar como Ministro da Justiça. Distinção, também, a três Senadores que lutaram com a só arma da retórica combinada à convicção à serviço da defesa de Dilma: Lindberg Farias, Vanessa Graziottin e Dayse Hoffman.  Todos os outros, mesmo o combativo Senador Caiado ou o diligente Senador Relator ,   e a Advogada autora da denúncia, Janaína Paschoal, com direito a um momento de glória discutível,  foram apenas coadjuvantes.

 

Dilma distinguiu-se neste momento derradeiro da tragédia por três dicções: A Carta aos Senadores e ao Povo Brasileiro, divulgada antes de sua ida ao Plenário, na qual reafirma a convicção de ser vítima de um golpe parlamentar, a sua fala neste Plenário plenipotenciário no dia 29 de agosto, considerada impecável, apesar da forte acusação aos que a acusam de Crime de Responsabilidade, que ela refuta, e , finalmente, sua reação ao final do dia 31, depois de conhecer a decisão sobre seu afastamento, quando, então, reitera o discurso do Golpe e prevê incansável combate ao Presidente Michel Temer, apesar de seu visível abatimento, responsável por alguns deslizes de retórica rocambolesca. De qualquer forma, sai ela, pessoalmente, até o dia de hoje, até engrandecida pelo desempenho nesta fase final do processo.

Cumpriu-se o impeachment, como uma tragédia de sublimação, na qual o suposto herói sai fortalecido e não propriamente destruído.  Falta ainda, entretanto,  cumprir o Brasil...

 

As cartas, desde o início estavam lançadas e marcadas. Mas os defensores de Dilma não esmoreceram e combateram o bom combate, até arrancar, ao final o prêmio consolação da preservação dos direitos políticos da Presidente cassada. Com isso, ela, uma especialista em gestão pública com passado glorioso mas sem qualquer representatividade, emerge como uma provável Senadora dos Pampas. Foram todos derrotados politicamente e ela carregará nas costas o peso por ter sido a responsável , com seus erros, pelo fim da Era Petista..Mas saiu com honra. Muito diferente de Chamberlain, na boca de Churchill, que lhe prenunciara, depois da contemporização com Hitler diante da ocupação da Austria e dos sudetos:

“Tentou sair sem guerra e com honra, mas acabará, no seu fim, com guerra e com desonra.”

É , aliás, Renato Janine Ribeiro, ex Ministro da Educação de Dilma quem melhor  expôs :

O processo de Dilma terminou em torno da honra.
Mas não no sentido que quase todo mundo dá a essa palavra, como sinônimo de honestidade.
Por séculos e séculos, honra foi e em vários lugares ainda é a imagem pública, externa, do valor de uma pessoa.
Não necessariamente seu valor íntimo, verdadeiro.
Primeiro episódio: Dilma se defendeu com honra, na segunda-feira. Passou treze horas respondendo, não escorregou na língua, não se acovardou. Para alguém que se formou num dos Estados brasileiros em que a honra, no sentido tradicional, é tão importante (o Rio Grande do Sul), ela cumpriu seu dever. Defendeu sua honra. 
Segundo episódio: a votação de seus direitos políticos. Cassá-los seria um insulto - uma desonra. O Senado, incluindo 16 membros que votaram por seu afastamento do cargo, manteve seus direitos. Um pouco como se cumprimenta o inimigo que lutou bem.
Só se entendem esses dois atos quando se pensa nesse conceito tradicional, aristocrático, guerreiro de honra. Não à toa, ela é gaúcha de adoção. Não à toa, quem melhor defendeu seus direitos políticos foi um nordestino, na última fala antes da última votação - por sinal, uma fala fora do programa.

 


Benedito Tadeu César
, sociólogo, residente em Porto Alegre, compartilhou  e eu aqui registro o  depoimento, hoje, no Facebook,  de um professor angolano, extremamente favorável à Dilma Roussef.  Sinto isso aqui em Portugal, entre vários amigos, todos simpáticos à Dilma, como também da leitura de vários jornais aqui da Europa:



"Ouvi o discurso Dilma que faz lembrar o de Mandela no dia do seu julgamento em 1964. Em alguns pontos o de Sócrates. Parece um testamento ou um manifesto. Vai servir de base para refundação da republica. Muitos povos do mundo gostariam de ter uma líder assim com convicção nos ideais da justiça e da liberdade e de acreditar na palavra e na politica. Vivemos num mundo de cínicos. Poderá não ganhar mas ela prova que o melhor da humanidade ainda não se perdeu. Aquele olhar dela de águia! Tao paradoxal: parece frágil mas tão gigante! Parece julgada mas é por ela q todos saem julgados. Parece um momento televiso mas é historia do Brasil resumido no rosto daquela mulher...e aquela voz que parece que se quebra mas se mantém firme. Sem ódio, sem ressentimento... tão grande que ela estava! Tão serena! Tão linda. E tão humana!

 

                                 Conclusão

Afastada Dilma Roussef e empossado na mesma tarde o Presidente Michel Temer, com mandato até 31 de dezembro de 2017, o país entra não só num novo curso presidencial, no qual se prevê alguma reorganização interna da economia e da sociedade, mas em nova fase de seu processo de democratização. O fim da Era Petista é também o fim da era da abertura controlada, pelo qual foram cuidadosamente excluídos os agentes que poderiam exacerbá-la, sobretudo Brizola, mas também Ulysses Guimarães. O cenário político deverá alterar-se com um relativo enfraquecimento do PT, que abrirá espaço à esquerda para seu filho rebelde, o PSOL, sem que este, contudo jamais (?) alcance a vertebração nacional conseguida, seja pelo próprio PT, mercê da conjuntura em que foi constituído, mas também, das forças, principalmente da Igreja, que o acompanharam, seja pelo PMDB, agora no poder. O PSDB, outro resultado, embora menos previsto ou desejado no processo da abertura controlada, da era da redemocratização, também sai visivelmente desgastado de todo este processo. De suas principais lideranças nacionais, Aécio tende a desaparecer sob as acusações da Lavajato, José Serra,  experiente, dá mostras de cansaço mental nas sucessivas trapalhadas que encena e o Governador de S.Paulo, Alkmin, o mais sábio, já carrega o peso de uma escolha errática para a Prefeitura da Capital que rachou ao meio a principal base do Partido no país. A radicalização do discurso trouxe à tona uma extrema direita conservadora, liderada pelo Capitão Bolsonaro, mas que dificilmente penetrará junto aos meios empresariais.

 

 

O debate conjuntural ainda será dominado, por um tempo, pela discussão em torno do  “Golpe” (Fora Temer), sustentado pelos partidários de Dilma Roussef, numa agenda claramente negativista, fadada ao cansaço, sem grande apelo de massas, das “Reformas”, centradas no Congresso, que poderão reavivar resistências populares, além uma provável retomada dos debates sobre os caminhos da nova Oposição no Brasil. Se até há pouco, os olhos da esquerda em escala internacional, como os dos economistas dissidentes americanos, de alguns marxistas e Partidos Políticos europeus, até o Papa Francisco, pousavam os olhos na experiência latino-americana como uma esperança de reconstrução do socialismo em novas bases, tudo indica que, doravante, empreenderemos o caminho inverso, no sentido da atualização de nossas visões teóricas, táticas e estratégicas ao que vai pelo mundo. Ponto de partido para isso será a revisão crítica sobre o próprio PT e seus Governos, sujeitos, agora, a saraivada de acusações que lhe exsurgirão de vários cantos da esquerda, mas basicamente por parte dos que purgaram ou a discriminação pelo PT – muitos brizolistas e comunistas – ou sua mera expulsão – Airton Soares e Beth Mendes, ao assinarem a Constituição de 88 contra a determinação do Partido, Luciana Genro e Babá, no episódio lamentável da Reforma da Previdência de 2003, início do governo Lula, por sua discordância com esta Direção, Marina Silva, escanteada em beneficio do Plano para a Amazônia do Ministro SAE, Mangabeira, e tantos outros,   como Cesar Benjamin, em post no FACEBOOK de 30 de agosto:

 

Os insultos estão aumentando por aqui. Acabo de ser chamado de “socialdemocrata canalha”. Essas pessoas não são minhas amigas, nem reais nem virtuais, mas vêm à minha página só para escrever coisas assim. Estão histéricos com o “golpe” em curso. Não os vejo nas ruas, nas fábricas, nas periferias, só aqui no facebook.

A ideia de golpe pressupõe um choque traumático de duas forças antagônicas. Allende foi assassinado e João Goulart teve que ir para o exílio. Em cada caso havia dois projetos, muito distintos, em luta.

Não é este o caso do Brasil atual. A agenda de Michel Temer, se ele for confirmado, será um desdobramento um pouco mais radical da agenda do próprio PT.

Tudo o que os petistas agora demonizam estava em curso no governo Dilma: o ajuste recessivo, a perda de direitos, o fatiamento da Petrobras (com o nome de “desmobilização de ativos”), a reforma da Previdência, o corte nos programas sociais...

Não havia nenhuma reforma estrutural de caráter progressista em cogitação.

Grande parte dos atuais ministros de Michel Temer foram ministros de Dilma e de Lula (o PMDB já tinha oito ministérios e diversas estatais).

A “base aliada” é fundamentalmente a mesma. Os métodos de fazer política, idem.

Dilma aceitara a proposta (de Lula) de colocar Henrique Meirelles no Ministério da Fazenda, exatamente onde ele está.

Para onde quer que se olhe, não há nada de épico ou de "histórico" na derrocada do PT. Está colhendo o que plantou.

O futuro do Brasil não passa por essa falsa polarização. Se quisermos fazer a história andar, precisamos deixá-la para trás.

PS. Saí do PT há 21 anos. Desde então ouço que “não é hora de criticar o PT”. Há muito tempo entendi que os pretextos mudam, mas a hora é nunca.

 

Apesar de tudo, como disse no início deste artigo, entre virtudes e vícios, a serem ainda sopesados pela História, valeu a experiência da Era Petista.

 

Agora, Instaure-se o luto, como deve ser, entre os defensores de Dilma,  mas sem sucumbir ao catastrofismo. Viver, já disse nosso grande Guimarães, é muito perigoso. Jamais há garantias. Toda essa era atual começou com o combate de M.Tatcher à greve histórica dos mineiros do carvão. Desde então, o corporativismo, que foi historicamente o núcleo duro da esquerda  está em crise. E a própria esquerda em busca do tempo perdido para reencontrar o novo caminho da esperança e da utopia. O do século XX chamado por Bobbio como SÉCULO DOS DIREITOS, por haver colocado o cidadão e não o Principe no centro do Estado, já acabara na Europa. Agora atinge em cheio o Brasil. A democracia está em risco, não no Brasil, mas no mundo ocidental, mercê do intervenção direta dos grandes interesses econômicos na esfera Política. Diante disso o caminho não é o da segregação da esquerda, em corporação, classe ou Partido político, como se eleitos fossem para uma redentora missão, com base nas velhas cartilhas ,  mas sua ampliação para o centro da sociedade com vistas a evitar o pior.

O que aconteceu com o impeachment, ao contrário do que muitos apregoam, não foi um  episódio  de Republiqueta de Bananas, nem país de quinta categoria. Simplesmente, entramos na realidade do mundo contemporâneo: o triunfo do Capitalismo Financeiro , com o fim dos direitos arduamente conquistados no Seculo XX, o Século dos Direitos. Este choque, aliás, é lado funestamente positivo dos dias que passam: O sonho de “Alice no Páis das Maravilhas” acabou-se. Agora é pormo-nos de pé e tratar de  nos concertar internacionalmente para um novo tipo de resistência, menos auto-suficiente, mais abrangente politicamente e fundamentalmente democrática.

É o que se vive na Europa, dividida entre BREXITs e neopopulistas de extrema direita  e a  Altentativa 2025 ,  do SYRITZA, de fazer um plebiscito para redefinir as linhas da UNIÃO EUROPEIA em 2025, capazes de dar um golpe definitivo no neoliberalismo, já, aliás, desacreditado.

 

 

 

 
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