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12/08/2016 00h00
 

IMPEACHMENT À VISTA
E daí?

 
As ruas não impediram o impeachment mas estigmatizaram Temer

 

O clima geral no Brasil é de uma diversidade inusitada: uns choram, outros riem, alguns tentam apenas compreender. E nem se pode dizer que uns à custa dos outros. Está tudo misturado. Mas não é uma feijoada tradicional, com charque e costelinha de porco. O caldeirão tem camarões e ervas finas. Finíssimas...Como nunca antes na história desse país!

 Sobre o pano de fundo da crise ética e econômica que arrasta mais de 11 milhões de brasileiros ao desemprego, sobrepõe-se o colorido das Olimpíadas Rio 2016, que nem por isto poupou o Presidente Temer de uma vaia constrangedora em sua bela abertura e desata, agora, a reta final do impeachment da Presidente Dilma. Eduardo Cunha, despossuído, aguarda apenas sua hora. Daqui a um ano ninguém mais sabe quem ele foi.

 Encerrados os trabalhos da Comissão do Senado que  aprovou o Relatório do Senador Anastasia, contra a Presidente Dilma, pronunciou-se, também seu Plenário daquela Casa, dia 09 de agosto ,   por 59 votos contra 21, a favor do julgamento definitivo da questão. Tudo indica que, até o dia 29 deste mês, Dilma será definitivamente afastada e Michel Temer confirmado na Presidência, até a posse daquele que se sagrar vencedor nas eleições de 2018.  Processo este, todo ele, demorado, muito controvertido – “o golpe” – e complexo, pois mexeu com as entranhas das instituições nacionais vinculadas ao   universo político.

Em 1961, quando João Goulart, Vice Presidente de Jânio Quadros o sucedeu em decorrência da sua renúncia, também houve grande reviravolta: Saía um Presidente eleito pela “direita” e entrava um Vice eleito, eis que, na época, tratava-se de eleições independentes, pela “esquerda”. Agora, ao contrário, embora turvado por circunstâncias e protagonistas totalmente diferentes: Saí a esquerda e entra a direita. Ou melhor, como diria o Brizola, sai a esquerda que a direita ajudou a  eleger e entra a direita que lhe fazia companhia na própria  chapa. O grande partido conservador , o PSDB, que se bate contra a esquerda desde 2002, curiosamente, está à margem de tudo e talvez até seja o maior prejudicado em todo esse imbroglio. Parece que sumiu, como sumiu seu candidato anti-Dilma em 2014, Aécio Neves. Seus líderes maiores, entretanto, esperam apenas a consagração de Temer na Presidência efetiva para dar-lhe guerra.  

Difícil de entender? Nem tanto. Tudo se explica pelo sucesso de Lula– 2003-2010 – e que levou grande parte do empresariado, da classe média e de suas representações político-partidárias, notadamente o PMDB, a se juntarem a ele. Ou seja, o centro inclinou-se para a esquerda e lhe deu razoável sustentação. Isso não ocorreu de uma hora para outra. Já em 2002 a presença de um grande empresário como Vice de Lula, José de Alencar, prenunciava este casamento, afinal consumado  com a presença de Michel Temer, do  PMDB , ao lado de Dilma Roussef nas campanhas de 2010 e 2014. A mudança das circunstâncias mundiais ao longo da década, o peso do cotidiano na relação, a alteração de comando de Lula para Dilma, a inquietação das ruas em junho de 2013 e a eclosão da crise econômica, já em 2014, quando o PIB iniciou seu mergulho da recessão, levaram ao fim do romance. Como se não bastasse, a Operação Lava Jato foi abatendo a moral do PT, afastando-o crescentemente da classe média e acabando por lhe retirar gradativamente a capacidade de condução do processo político. Instaurou-se o impeachment de Dilma, ela foi afastada a 17 de maio e agora a novela aponta ao seu fim.

Esta é, claro, uma interpretação. Nem digo que seja a melhor ou mais verdadeira. Verdade, mesmo, só com o passar do tempo. Mas é maneira como um observador vivido vê as coisas. Tenho a percepção de que o PT começou bem, apesar do vício de origem no corporativismo messiânico, avançou no campo das políticas sociais, mas foi incapaz de construir uma aliança estável para um projeto de desenvolvimento. Perdeu-se. E se isolou em si mesmo. Até imaginou, na formação do Governo Dilma II, em 2015, uma ampliação social ousada, evocativa do varguismo, com indicação de representantes de quatro segmentos nativos da burguesia no Ministério – Joaquim Levi, pelo sistema financeiro, Kátia Abreu, pelo agro-business e Armando Monteiro pela indústria e Afif Domingues pela pequena empresa. (E só não estavam aí as empreiteiras porque já enclausuradas na Lavajato...) . Kátia Abreu e Armando Monteiro, ambos do PMDB, lhe têm sido leais, até agora. Têm erguido sua voz e voto no Senado contra o impeachment. Mas nem este esforço conseguiu retirar Dilma do isolamento. A burguesia cosmopolita liderada pela FIESP, com ampla ramificação na mídia, se impôs, ganhou o PMDB para sua causa no projeto “Ponte para o Futuro” apresentado por Michel Temer já antes de assumir a interinidade, e definiu a parada: FORA DILMA! Tudo isso, para os defensores do PT e de Dilma, nada mais é do que um golpe. E, com esta narrativa foram às ruas, com o equivalente FORA TEMER! Até parece que foi mesmo a dissolução de uma relação conjugal, com direito a procedimentos nem sempre louváveis.

Restaria, entretanto, indagar como, instaurado o processo de impeachment, não conseguiu o PT/Dilma evitar o pior: seu desfecho trágico?

Sem delongas, seleciono alguns pontos:

Discurso – O PT, desde o início do processo de impeachment optou por uma narrativa que combinava os feitos passados, no destino manifesto de Partido da redenção nacional, onde pontualizou a mensagem do nós x eles, com a denúncia do golpe. No feito principal, porém, que teriam sido os benefícios econômicos, a crise foi-lhe engolindo os argumentos. Na denúncia do golpe, a controvérsia sobe as pedaladas se impôs a favor dos denunciantes à medida em que o impeachment saía do campo judicial para o político, no Congresso Nacional. O discurso do PT fracassou, portanto, na tentativa de impedir a saída de Dilma, mas funcionou como um apelo interno à defesa da sigla para o futuro. Não por acaso, as tensões entre o Partido PT e Dilma tendem a se acentuar. Ela, preocupada com sua biografia, o Partido com sua presença na vida política do país.

Ruas – As ruas cumpriram seu papel, desde 2013, na desestabilização de Dilma. Caberia aos seus defensores contrabalançar este movimento. Até tentaram. Mas jamais o entenderam adequadamente.  Mas, limitados por um discurso para público interno, sempre defensivo, não foram exitosos. A ultima tentativa de virar o jogo , em 31 de julho, conquanto expressiva, não o foi ao ponto de trazer de balançar o Senado. O lulu-petismo falhou, portanto, nas ruas.

Classe Média – As lideranças de esquerda até conseguiram ampliar o discurso inicial da denúncia do golpe para uma consigna de defesa da democracia e isto ficou patente na vaia olímpica ao Presidente Temer na abertura da Rio 2016,  mas isto não conseguiu compensar, junto às classes médias o estrago feito pela Lavajato e pela crise econômica. A classe média não quer Temer, mas também não deseja a volta de Dilma. Falhou o PT ao estigmatizar uma classe média forte e formadora de opinião.

Senadores – Desde o começo sabia-se que o foro definitivo que iria selar a sorte de Dilma seria o Senado, pois ali se daria o julgamento do impeachment. Na primeira apreciação sobre a aceitação do relatório da Câmara, 22 senadores, no total de 81, votaram contra, exigindo, portanto um grande esforço ombro a ombro para que na derradeira hora este número chegasse a 28, com o que o estaria desclassificado o pedido de impeachment. Não obstante, os votos favoráveis à Dilma caíram para 19, tudo indicando que a causa está perdida. Isso porque a intolerância ideológica e verbal  diante de alguns senadores indecisos, como Cristovam Buarque, estigmatizado nas redes, onde não faltou a bobagem  da devolução  de um prêmio dado por ele quando Governador do Distrito Federal a Fernando Morais. Falhou o PT na conquista das gotas salvadoras. Pior, perdeu dois votos no Senado.

Dilma – Aqui, como diria Machado de Assis tudo a lamentar, nada a destacar. Personalidade auto suficiente, pouco afeita ao cotidiano da política e muito menos à liderança que transcende o mero exercício da autoridade, ela optou pelo caminho da auto vitimização: ora porque é de esquerda, ora porque foi torturada, ora porque é mulher, ora porque é honesta. Teve até algum resultado, pois sua aceitação melhorou sensivelmente na opinião pública. Mas este é um discurso também defensivo, não construtivo e muito menos construtivo para um futuro melhor. Sabe-se, agora, que seus problemas com o próprio Lula e com PT se acentuam cada vez mais, à medida em que delações da Lavajato atingem o financiamento de suas campanhas  e que ela tende a jogar a responsabilidade desses eventuais malfeitos sobre os ombros do Partido e não dela. Já haviam falhado Lula e o PT na indicação de Dilma à Presidência, senão em 2010, certamente em 2014. E ela, pessoalmente, falhou junto ao Senado em suas tentativas de ainda reverter algum voto.

A crise política, enfim, não se encerrará com o afastamento definitivo de Dilma.  O cenário está muito conturbado, as denúncias da Lavajato se sucedem e atingem todos os Partidos - até o Presidente Michel Temer- e, talvez, só tenhamos algum alívio com novas eleições, o que vem sendo cada vez mais cogitado nos altos círculos de Brasília. A grande maioria dos brasileiros diz que quer ELEIÇÕES JÁ! O problema, entretanto, é saber: Como...? A esperança é que, passadas Olimpíadas, Impeachment e últimas ilusões com Temer, as ruas voltem a se manifestar. Quanto o povo quer mesmo e se manifesta, as coisas mudam. Senão, tudo como dantes do quartel de Abrantes, cidadezinha aliás, aqui em Portugal, próxima de onde moro e de onde saiu este provérbio ao final da ocupação napoleônica no início do século XIX - http://ninitelles.blogspot.pt/2011/01/de-onde-vem-tudo-como-dantes-no-quartel.html .  

 
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